domingo, 9 de agosto de 2009

Memória do Futebol Cearense - Pintado



Pintado quando concedeu última entrevista, em 2006. E nos tempos de goleiro do Ceará. Paixão pelo Alvinegro

O Ceará perdeu na madrugada de 02/08/2009 o mais antigo atleta da galeria de ídolos de Porangabuçu. Aos 94 anos, faleceu de infecção generalizada o ex-goleiro Adhemar Nunes Freire, o Pintado. O ex-atleta alvinegro foi sepultado com a bandeira do clube, no fim da tarde, no cemitério São João Batista, no Centro.

Nascido no mesmo ano da fundação do Ceará Sporting Club (1914), Pintado defendeu o Vovô entre as décadas de 30 e 40, sendo campeão em 31, 32 e 48, e sempre se orgulhou em ser torcedor alvinegro, mesmo quando se transferiu para o futebol carioca, onde defendeu Madureira e Botafogo - sagrou-se campeão carioca em 1935 pelo time de General Severiano. Professor de inglês, chegou a ocupar o cargo de diretor em algumas escolas de Fortaleza.

Recentemente, lutava contra o câncer e há três anos passou a sofrer do mal de Alzheimer. Segundo a família, a última entrevista de Pintado foi concedida ao O POVO, em 2006. O relato, inédito, é publicado hoje:

O POVO - O senhor chegou a jogar numa época em que ainda não havia o profissionalismo, que só veio na década de 1930. Naquela época, o futebol cearense era muito diferente de hoje?
Pintado - Era tudo muito amador. Não há mais futebol como naquela época. Você jogava porque gostava. Muitos atletas saíam dos colégios, como foi o meu caso. Jogava pelo time da escola (Marista Cearense), sempre como goleiro. Hoje, o futebol perdeu aquela graça, é tudo muito profissional, sério demais.

OP - O senhor recebia salários dos clubes?
Pintado - Eu recebia dinheiro para jogar. Não era como é hoje, mas dava para me manter.

OP - A maioria dos jogadores de hoje vem de famílias pobres. Como era antigamente?
Pintado - Os jogadores vinham de origem variada, mas havia muitos de classe alta. Estes vinham dos colégios. Os outros não, começavam a jogar na rua e depois passavam para os clubes.

OP - Qual o motivo do seu apelido?
Pintado - Me deram por causa das minhas sardas.

OP - O senhor chegou a jogar quando ainda nem existia o PV, inaugurado em 1941. Jogar no campo do Prado era muito diferente?
Pintado - No Prado era muito empoeirado. Antes do jogos, molhavam o campo com uma mangueira para que a gente pudesse jogar. Melhorava e não ficava lama não.

OP - Entre as décadas de 1930 e 1940 já havia a rivalidade entre Ceará e Fortaleza?
Pintado - O Maguary é que era o principal rival do Ceará até parar (em 1945, voltando depois entre os anos de 1972 e 1975 e neste ano). Era o mesmo que acontece hoje entre Ceará e Fortaleza. O Maguary era o time dos ricos e a rivalidade com o Ceará, que era popular.

OP - Mas chegava a haver brigas ou algo próximo disso, como vemos hoje?
Pintado - Não. Havia desentendimentos, rixas, mas nada muito sério. De qualquer forma, a gente sempre evitava participar desses acontecimentos. A gente procurava manter uma certa distância daquilo que acontecia entre torcedores e dirigentes adversários.

OP - O senhor chegou a jogar fora do estado, no Rio de Janeiro. O futebol lá era mais avançado do que aqui?
Pintado - Eu fui para o Rio de Janeiro e joguei no Botafogo e no Madureira. O futebol, lá, era mais avançado, tinha muitos bons jogadores.

OP - O senhor torcia para algum clube?
Pintado - Eu sempre torci Botafogo. Aqui, sou Ceará.

OP - O senhor possui 91 anos (na entrevista realizada em 2006), sendo apenas três meses mais novo que o Ceará. Como é a sua relação com o clube, do qual é considerado um dos maiores jogadores da história?
Pintado - Nasci no ano que surgiu o Ceará: 1914. É muito bom saber que joguei no time que torço. Sempre gostei muito do Ceará e é um prazer fazer história nele.

OP - Impressiona o fato de que, observando suas fotos nas equipes do Ceará mesmo na década de 1930, o senhor mantém uma fisionomia muito próxima de quando ainda era jogador.
Pintado - Eu praticava outros esportes além de futebol, sempre gostei. Tem até uma história curiosa. Eu tinha uma casa na praia, próximo ao (Clube dos) Diários (encerrou suas atividades na avenida Beira Mar em 2003), e, uma vez, quando estava andando na areia, salvei a vida de um homem que vi se afogando. Sempre gostei de nadar, de praticar esportes.

OP - O senhor ainda acompanha futebol?
Pintado - Fui a estádios poucas vezes.

Fonter: Jornal O Povo

Um comentário:

Marcio Moreira disse...

Muito legal este blog...
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